origem

Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

 

 

Corre a água pela Fonte,

Barulhando perto ao longe,

Triste e pálido mato meio sem Graça.

 

Sequiosa, a boca, comanda-se emudecida

Pelo calor da fachada

Que esconde o estro ingénito

Que acende e apaga a luz do meu ser.

 

Temos todas as razões para viver,

Mas falta-nos sempre uma razão para reparar o mundo.

Porque o mundo é ingente e pequeno,

Vê-se sempre perto de longe.

 

Brotam-se ideias e pensamentos,

Mas é certo que nunca se exuma como deve ser.

(Estará o solo insalubre?)

 

A água, pura, esvai-se

Pelo desejo ávido

Que mescla cada pedaço de mim.

 

Já nem me acho,

Deslustradas, as fotos

Que me pediram.

(Pena, os traços do rosto que se espelham na água)

 

O gesto inócuo nunca me há-de dar a conhecer o incognoscível.

 

Fosse, talvez, o mundo feito de insipidez

E fossem os dias resumidos a flores, sol e Primavera.

Fosse eu a tua sede e água da Fonte a tua boca,

Porque assim, num gesto vão, estaríamos conchavados.

 

O (nosso) mundo não é a fachada que pintamos.

 

 



publicado por Emanuel Graça às 03:25 | link do post | comentar

13 comentários:
De Luís Sobrado a 2 de Julho de 2012 às 01:28
Bom texto, num excelente blog...Com uma épica banda sonora!
(Se no ultimo verso houver uma referência ao B Fachada, made my day).


De Emanuel Graça a 2 de Julho de 2012 às 03:05
Obrigado, Luís, pelas palavras. É sempre muito bom ouvir.
(Certo, na mouche! Existe uma referência a Fachada, sim senhor. E como nutro grande admiração por esse senhor, até estou a pensar em, um dia, fazer um poema à sua pessoa)


De Luís Sobrado a 2 de Julho de 2012 às 11:49
Estou à espera desse texto, então! É realmente um enorme músico, se não mesmo o melhor a nível nacional, e um letrista incrível. Admiro-o pela maneira como conseguiu construir a sua linguagem própria, o fachadês. Pode soar a alguma presunção por parte do B, mas, na minha opinião, é de génio. Ainda me pergunto onde é que ele foi buscar inspiração para escrever tais versos no "Deus, Pátria e Família". Grande B Fachada!


De Emanuel Graça a 3 de Julho de 2012 às 00:25
Vais ter novidades em relação ao texto quando acabarem os exames e estiver mais livre, então! O "Deus, Pátria e Família" é, na minha opinião, a melhor coisa que se fez em Portugal desde há muito. Existe tanto por descodificar com aqueles versos escritos em fachadês... É qualquer coisa de sublime, indubitavelmente. Mas não é só aí que Fachada se destaca a nível lírico ; existem outras faixas que me fazem ter uma adoração por aquele senhor, um dos exemplos disso é a "Roupa de Estrada" ou a "Canção de amigo". Acho que me revejo um pouco no Fachada, sinceramente. B Fachada, um dos grandes que bate forte cá dentro!


De Luís Sobrado a 3 de Julho de 2012 às 14:32
Acho difícil rever-me no Fachada porque, bem, em 1º lugar tenho 15 anos e isso faz com que muitos dos temas presentes nas letras não sejam propriamente aqueles em que mais me revejo...Se é para me rever nas letras, é Black Keys all the way! Em 2º lugar, ele ao escrever na sua linguagem própria, acho que acaba por criar várias personagens em redor de si.
De qualquer das formas, admiro-o pelo letrista que é, até pela forma algo misteriosa como escreve em canções como "Só te Falta Seres Mulher". Canção essa que faz parte do meu álbum preferido do B. "A Bela Helena", "Kit de Prestidigitação"...álbum português da década.


De Emanuel Graça a 3 de Julho de 2012 às 23:06
Só tens 15 anos... Aplausos, então.
Eu percebo quando falas que não te revês em Fachada. (Btw, também adoro Black Keys. E até já tenho o meu bilhete para o Atlântico) Quando tu dizes que ele acaba por criar várias personagens... aí concordo e discordo simultâneamente. Acho que o B Fachada é uma personagem criada pelo Bernardo para extravasar tudo o que ele sente de modo a não ser mal entendido pela gente mais chegada (afinal, B Fachada relata-nos vivências e episódios da sua vida. Lembro-me de uma letra que é algo do género «a tia não me pára de chatear os miolos, quer saber de tudo. Não me lembro de ter pedido mais uma mãe» (claro que a letra dele não é esta, isto é só aquilo que ele quis dizer)... Dizer isto à sua tia não iria ser propriamente agradável, então vomita tudo que aquilo que lhe vai na alma pelo B Fachada, um 'cantautor multifacetado', que ora fala-nos dos encantos da Primavera como de um Portugal em queda. Ou simplesmente de divergências amorosas. (Aqui, a minha opinião vai ao encontro da tua, parece que existem várias personagens... Mas crei só existir duas: o Bernardo, que serve de génese para a criação artística, e o B Fachada que é aquilo que todos sabemos)
Arrisco-me a dizer que qualquer coisa que Fachada tenha feito, está no meu Top 10 do que se fez na última década por terras lusas.
(Não sei se me consegui clarificar muito bem quanto à minha visão do B)


De Luís Sobrado a 4 de Julho de 2012 às 02:40
(Dia 27 estou tão lá! Os Keys são grandes).
Acho que percebi onde querias chegar...Acho que acaba por ser uma visão completamente correcta, vejo também "B Fachada" como uma espécie de pseudónimo (neste caso, não sei, mas julgo que mais um heterónimo, por ter uma decifrável personalidade própria) criado pelo Bernardo.
Quando falava de o Bernardo criar várias personagens, talvez isso se deva a uma falha de interpretação das letras da minha parte... Estou-me agora a lembrar da letra d'"O Desamor" que começa com o verso "Fomos à Escócia e voltamos...", e antes via esse verso como um relato de um acontecimento que julgava eu ser aleatório, protagonizado por uma das personagens criadas pelo B. Pensava "O Bernardo pode nunca ter ido à Escócia, isto não é auto-biográfico". Via não só "B Fachada" como uma criação do Bernardo, como achava existirem várias personagens dentro da mesma personagem, e havendo muitas referências a membros da família, como avôs, irmãos, tios, tias, custa-me a capacitar-me de que existe só "um B Fachada". Pode parecer algo infantil e ingénua a minha análise, mas o que é que posso dizer...? O Bernardo deixa-me mindfucked.
Agora acho que começo a ver tudo de forma mais interligada...Obrigado pela análise! Também acho que me falta explicar qualquer coisa e que não me fiz entender da forma mais clara. Deve ser por serem duas e meia da manhã. Continuo a achar que é bom ser noctívago!
(Quanto a toda a obra do Fachada fazer parte de um eventual Top 10 do que se tem feito na e pela música em Portugal, não posso deixar de concordar. Até mesmo com o primeiro EP "Até Toboso", que, admito, foi-me ao início extremamente difícil de "digerir", achava aquilo quase inaudível...até que se tornou parte de mim).
Fica a minha pobre análise e o meu testemunho, e peço desculpa pelo meu defeito (?) que é ter de fazer um enorme esforço para parar de escrever.
E by the way, Obrigado novamente!


De Emanuel Graça a 4 de Julho de 2012 às 18:12
Ser noctívago... nem se é bom, se é mau. Espero que seja bom, ou moderadamente bom, porque, ao fim ao cabo, também o sou. [Depois, as aulas da manhã ficam-se a vestir, etc]
Pobre análise nada, toda a gente tem a sua interpretação do belo. A tua acaba por diferir um pouco da minha, mas não é por isso que a tua esteja incorrecta. São só teorias, e como a minha professora de filosofia costumava dizer, «teorias nunca estão incorrectas, a menos que haja falácias e falhas em alguns silogismos, nós é que temos de nos identificar com a teoria que achamos mais correcta». Se te clarifiquei algumas coisas em relação ao B, sinto-me feliz por isso, então!
Eu, por acaso, acho que o registo que mais me custou a entrar foi o 'Há festa na moradia', levei alguns tempos a conseguir digerir aquilo na perfeição.

E em Black Keys, a ver se nos encontramos, então. Pago-te um copinho, se quiseres. Faz print-screen para teres a prova em como disse que pagava um copo, etc.


De Luís Sobrado a 4 de Julho de 2012 às 23:06
Deves estar habituado a ouvir coisas deste tipo, mas isso de pagar um copinho teve, literalmente, graça (if you know what I mean).
(Fazem muitos trocadilhos com o teu nome, my bet).
Claro, why not, desde que o meu pai me deixe usufruir de um raro momento de convívio com alguém com um gosto musical (mais que) decente e com ideais assustadoramente semelhantes, acompanhado por "um copo", situação essa que teria de levar a uma falsificação da idade de minha pessoa, o que poderia trazer graves consequências na minha vida actual e futura...estou lá!


De Emanuel Graça a 5 de Julho de 2012 às 12:21
Posso dizer que sou uma vítima constante do fenómeno dos trocadilhos. Gira o disco e toca o mesmo todos os dias, basicamente.

Um pai que leva o filho a ver Black Keys só pode ser boa gente! Porreiro, correr o risco e tal... é esse o espírito. Se depois levares uma multa avolumada não importa, o que importa é o dito convívio! Se for preciso, ainda pago ao teu pai, também! Eu, cá, sou boa gente!


De Luís Sobrado a 5 de Julho de 2012 às 18:54
Está combinado, já tirei o print e irei prevenido com um vasto arsenal de apetrechos de maneira a passar por um indivíduo-com-idade-igual-ou-superior-àquela-que-é-obrigatória-ter-para-se-poder-ingerir-bebidas-com-teor-alcoólico-quer-seja-ele-elevado-ou-nem-por-isso.
E se tiver sorte talvez possa saber a origem dos "etc's" utilizados frequentemente a meio ou no fim das frases. Lá vou eu beber uma b'jeca com o Graça, etc.


De Emanuel Graça a 6 de Julho de 2012 às 17:39
Está mais do que combinado, então! Isso é tudo fantasias, os comerciantes na verdade lá querem é saber da idade de quem está a beber... desde que o guito lhes vá parar ao bolso, o resto é treta. Isso dos etc's nem tem muita história, quando ultrapassamos a fasquia da estupidez-minimamente-aceitável-pela-sociedade acabamos por ficar assim: em demência, etc. Beber uma b'jeca de graça com o Graça! Não é para todos!


De Eugénia Simões a 3 de Julho de 2012 às 00:43
Este poema é, segundo percebi, uma metáfora absolutamente brilhante. Composição lírica excelsa, indubitavelmente. Continuação da excelente escrita, cada vez mais fã do seu blog. :)
(Fonte, a que o inspirou a esta autêntica obra de arte, é um nome próprio, certo?)


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